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Entrevista com o Prof. Dr. Eng. Plinio Tomaz

02/03/2015

“Temos a ideia errada de que existe muita água no mundo”

Os Fóruns das Instituições de Ensino e das Entidades de Classe do Crea-SP realizaram sua primeira reunião conjunta do ano em 26 de fevereiro, no auditório do Espaço Técnico-Cultural do Conselho à Avenida Angélica, na Capital paulista, trazendo de volta um palestrante ilustre: o Prof. Dr. Engenheiro Civil Plinio Tomaz, autoridade em assuntos ligados à utilização de água.

Na ocasião, o Engenheiro Plinio Tomaz foi recepcionado pela Chefe de Gabinete do Conselho, Engenheira Elisabete Rodrigues, e pelo Diretor de Entidades de Classe, Eng. Civ. e Seg. Trab. Oswaldo José Gosmin. O oportuno convite refletiu a necessidade de se colocar em discussão a atual crise hídrica no Estado.

Autor da norma brasileira para captação de água de chuva, em vigor desde 2007, o Professor Doutor Plínio Tomaz é formado pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é Diretor-Presidente da Agência Reguladora dos Serviços Públicos de Saneamento Básico em Guarulhos, professor em cursos de manejo de águas pluviais. É autor de mais de 25 livros de engenharia civil sobre o tema água.

No Crea-SP, já foi Conselheiro de 2004 a 2007, tendo coordenado a Comissão Especial de Meio Ambiente e os Grupos de Trabalho Saneamento e Recursos Hídricos e Fiscalização em Bacias Hidrográficas.

Na reunião dos Fóruns, o Engenheiro discorreu com propriedade sobre dois temas amplos: o manejo de águas pluviais e o aproveitamento de água de chuva. Antes do início das palestras, Plinio Tomaz concedeu uma entrevista ao site do Crea-SP.

Quais são os destaques principais das suas palestras?

Vamos falar sobre a crise hídrica, o que acontece com o problema de água na Região Metropolitana de São Paulo e no Brasil, e as atitudes que se deve tomar para economizar água: usar instrumentos que economizam água, fazer o aproveitamento de água de chuva, fazer o reúso, usar hidrômetros em apartamentos, atitudes que são muito importantes hoje em dia.

É possível apontar quem são os verdadeiros “vilões” para a crise hídrica atual do Estado?

O planejamento que deveria existir para um período de 30 anos, está sendo feito para quatro anos, que é o tempo de governo, de uma gestão. A situação não está boa: o planejamento tem que ser bastante discutido com a sociedade civil; e é isso que não está sendo feito: não há planejamento.

Há muita improvisação.  Nós temos aqui na Região Metropolitana o problema do Sistema Cantareira, que está já ultrapassado, não aguenta mais a demanda de São Paulo; há muito tempo já tínhamos que ter procurado outros mananciais, mas infelizmente nada foi feito. Estamos “deitado eternamente em berço esplêndido”, como diz o nosso hino, mas no sentido negativo. Não devemos fazer isso. Há uma crise, um desespero total do governo de trazer água do Paraíba do Sul, onde não tem água. Quer trazer água da Billings, que está poluída, e jogar no Alto Tietê; trazer de São Lourenço, que é muito bom, mas existem soluções mais modernas hoje. Pode-se tratar o esgoto, fazer tratamento primário, secundário e terciário, e avançado, você consegue produzir água potável. É o reúso potável direto.

A água de reúso é um fato. O reúso já chegou. E a grande vantagem é que existe tecnologia pra isso. Não há problema de tecnologia. A tecnologia está disponível no mercado, não há mais segredo. É o caminho que nós precisamos fazer.

Sou diretor de uma agência reguladora de saneamento básico em Guarulhos e vamos fazer o tratamento de esgoto, transformar em água potável, que é o que os americanos estão fazendo.

Países como Cingapura e Israel, e os Estados da Califórnia e da Flórida usam. Nós ainda não: temos aquela ideia errada de que nós temos muita água no mundo. Nós temos 12% da água do mundo, só que é que nem o dinheiro: a água está mal distribuída: 70% na Região Norte, 3% no Nordeste, o Sudeste tem 6%. Tem lugar que tem seca e, no Acre, está inundando tudo. Então a água está mal distribuída e justamente em lugar que tem menos população. Esse é o grande problema.

Os estudos do Instituto Agronômico de Campinas têm dados de precipitações de 125 anos. Aqui a crise de 1953 no Cantareira é considerada a mais grave, mas houve seca pior do que essa, e não está registrado, não foi feito estudo. A seca de 2014 foi pior do que tudo isso. Uma diferença de volume de 372 milhões de m3, que está no volume morto. Nós estamos pegando essa água do volume morto, que o governador sabiamente chamou de “reserva técnica”, não é reserva técnica coisa nenhuma, é volume morto. A seca que nós tivemos foi muito grande, mas ninguém sabe explicar, não conhecemos tudo o que acontece nesses fenômenos hidrológicos, climatológicos, que são muito complexos.

Qual é a grande contribuição que a área tecnológica pode oferecer neste caso?

O grande problema que existe para a área tecnológica é a falta de norma de reúso. Precisamos fazer isso, então eu contaria com o apoio do Crea-SP para fazer a norma de reúso. Em 2007, foi feita a norma de reaproveitamento de água de chuva. Eu era Conselheiro e dei uma entrevista na Revista do Crea-SP, que é muito boa, e está voltando de novo, graças ao Presidente Kurimori: eu falei no final da entrevista que não existiam normas técnicas da ABNT. A ABNT me chamou, entreguei um projeto de normas que eu tinha feito com o pessoal do Crea-SP, professores da USP, da Ufscar, e fizemos a norma técnica.

O Crea-SP é uma coisa impressionante: se você quiser os melhores especialistas do Brasil, nas várias áreas, está tudo aqui dentro. As pessoas não imaginam como a gente tem gente boa nesse Crea, de altíssima qualidade, de competência, de alto gabarito, dos quais às vezes não sabemos a importância.

O Presidente Kurimori é muito inteligente. Hoje temos comissões tripartites em todos os Comitês de Bacias no Brasil, mas essa ideia foi dele, foi ele quem bolou. Teve a coragem de enfrentar isso e assinou um artigo, em 1985, quando ainda era engenheiro do Departamento de Águas e Energia Elétrica, em que sugeria que os Comitês de Bacias fizessem uma comissão tripartite. É um exemplo do nível das pessoas que temos aqui.

Quais os perigos que a população corre ao tentar algumas iniciativas de reaproveitamento de água nas suas residências?

Estão armazenando água de chuva em reservatórios e vasilhames abertos, a água é limpinha, mas atrai o mosquito da dengue e a dengue está aumentando.

É má aplicação, a pessoa não sabe as técnicas. Quando fiz a norma, representando o Crea-SP, queria orientar as pessoas a fazer as coisas corretas. Existe a norma técnica de aproveitamento de chuva, a NBR 15.527/2007. Tem que ser usada a norma, engenheiros, arquitetos, tecnólogos, todo mundo tem que obedecer a norma, não é um “do yourself”. A norma tem força de lei. Se você colocar o aproveitamento de água de chuva, sem seguir a norma, numa escola e morrer uma criança, você vai ser punido, você é responsável.

Qual é o país referência quando o assunto é reúso?

Os americanos (Estados da Califórnia, do Texas) estão muito envolvidos nisso, são os melhores do mundo. As maiores autoridades estão na Califórnia. Já estudaram todo o assunto, nós só temos que aproveitar essas ideias e usar tecnologia.

Outra coisa importante: em 21 de outubro de 2001, foi feito na Europa o Projeto Coroado, com a participação de universidades de 11 países, sobre o reúso para a América Latina. No Brasil, foi escolhida a USP, eu participei como convidado. Foi feito um programa de computador, que você pode pegar pela internet, gratuitamente, pegar os dados da tua cidade e ver como fazer o reúso de esgoto da sua cidade, da água potável ou não potável, o computador te dá sistema de cálculo, custo e o sistema que você vai usar no tratamento. Importante salientar que a tecnologia para o tratamento de reúso já existe e está disponível no mercado, não tem que inventar nada. O reúso chegou.

As perspectivas são animadoras?

No mundo moderno, possuímos grandes tecnologias. Podemos trazer água de longe, a custos grandes, rapidamente. A civilização maia caiu por falta de chuva, a civilização egípcia também ficou 150 anos com falta de chuva, o mundo tem essas crises muito grandes, mas hoje temos tecnologia. Nós temos bombas, tubos de aço, tecnologia fácil de usar. Não há problema, podemos trazer água de onde quiser. Temos recursos para isso, o mundo mudou. Trazer água de longe ou fazer o reúso de esgoto. Os americanos chegaram à conclusão que fazer o reúso de esgoto fica mais barato que trazer água de longe. Custos de manutenção, operação e investimento: cerca de 1,50 ou 1,60 reais de m3 de produção da água, é um custo já viável para nós, que é o custo que a Sabesp cobra.

O que falta é decisão política. Uma coisa importante é que, agora, o governador  de São Paulo colocou pessoas competentes pra tratar do assunto, como o professor Benedito Braga, da Poli, e a engenheira Monica Porto, secretária adjunta. Estão levando uma plêiade de intelectuais, de pessoas do ramo, da hidráulica, da hidrologia, da engenharia civil, são os melhores do Brasil e do mundo.

Na Sabesp também, graças a Deus, puseram um engenheiro pra tomar conta. Temos que valorizar a profissão do engenheiro, a tecnologia. Gente de gabarito, as coisas estão mudando. As coisas estão indo bem. Acho que o governador encontrou o caminho, que é só deixar esses homens trabalharem.

Como preparar bem os futuros profissionais, já no ambiente acadêmico, para o bom uso da água nos serviços de engenharia?

Temos que ensinar para os alunos o problema da economia de água. A escola tem que ensinar que, na agricultura por exemplo, nós temos que utilizar o gotejamento, técnicas melhores, aspersão, coisas assim. O consumo está dividido assim hoje: 10% é consumo urbano; 70% é agricultura; e 20% é industrial. A agricultura consome água demais porque não usa um sistema sofisticado. Por que não fazem isso? Os senadores, os deputados federais são quase todos fazendeiros. Quando se toca neste assunto, se toca num vespeiro, porque não querem mudar nada. Temos que tocar essas coisas com técnicas modernas, isso tem que passar para o aluno desde quando for fazer o projeto de engenharia. E o governo exigir também.

Como os profissionais podem ter acesso às suas obras já publicadas para usar como referência?

Tenho 25 livros já publicados: 10 em papel e 15 digitais. Isso tudo está no meu site www. pliniotomaz.com.br. O objetivo do meu site é a socialização do conhecimento, nós temos que transferir o conhecimento. Estudo todas as técnicas modernas, dou consultoria para um monte de empreendimentos do País, temos que divulgar essas coisas. Sem fins lucrativos. Um engenheiro de prefeitura pode pegar o modelo do meu livro e aplicar a técnica. Fui engenheiro na prefeitura de Guarulhos e sei como é isso, você se sente sozinho, não tem uma assessoria grande.

Qual o seu recado final para os profissionais?

Socializar o conhecimento: o meu objetivo é sempre esse. Preciso que o Crea-SP nos ajude a deslanchar a norma de reúso. Preciso da colaboração do Crea-SP porque o Conselho tem uma plêiade de intelectuais, temos gente com vasta experiência. Podemos inclusive montar uma Comissão do próprio Crea-SP. Temos que fazer um projeto de norma, “perturbar” a ABNT e estabelecer uma norma de reúso.

Produzido pelo Departamento de Comunicação do Crea-SP

Reportagem e fotos: Jornalista Perácio de Melo – DCO/SUPCEV


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